Quando o monarca lusitano ampliou no início do século XVIII a política de povoamento na costa da colônia brasileira –mais como proteção às recém-descobertas minas de ouro no interior–, um dos pontos escolhidos na Capitania de Porto Seguro foi a margem direita –perto da foz– do Rio Jequitinhonha.  No comando dos colonizadores e a catequisar os temíveis índios Botocudos, donos naturais do pedaço, aí esteve o padre Joseph Araújo Ferraz, missionário jesuíta.  Na pregação da fé cristã, entre 1708 e 1712o padre funda uma capela sob invocação de Nossa Senhora da Madre de Deus, nascendo ao seu redor o Arraial de São Pedro do Rio Grande. A lenda conta que em torno de 1715 uma leva de colonizadores portugueses trazendo a imagem da Santa do Carmelo aporta no povoado e, como ele crescia rápido, em 11 de abril de 1718 através do Alvará Régio de 11 de abril de 1718, é criada –mudando o título– a Freguesia de Nossa Senhora do Carmo. Em 1764 o povoado alcança a categoria de vila com o nome de Vila de Nossa Senhora do Carmo doBelo Monte.
Entendendo a necessidade, em 1776 os capuchinhos frei Caetano e frei Paulino, no espaço da igrejinha erguem outra de maior estatura e, sob o mesmo orago, classificam-na de Matriz.    Com base no livroBelmonte e sua História” de Afonso Monteiro (de 1918), entre 1895/1896,este templo também é demolido e –arquitetada porEttori Guerrierie construída por José Rodolpho, Antônio Alexandrino Siqueira, pedreiros e pelo carpinteiro Antônio Geraldo de Cerqueira, e com a supervisão do especialista-construtor Perminio Santos–, em seu lugar éerigida a atualIgreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo. O pároco da época eraAlexandre Alves Casaes e a obra –à frente uma comissão formada pelos Coronel Licínio Brasão, Major José Antônio da Silva e o Capitão Vicente Ferreira da Silva–foi custeada pela população.  Monteiro acrescenta além disso que a Paróquia Carmelita pertenceu primeiramente ao bispado de São Sebastião do Rio de Janeiro cujo limites iam a até o Puxim em Canavieiras, depois, com a delimitação, ao de São Salvador da Bahia e, em seguida com o desmembramento deste, ao –criado em 1913– de São Jorge dos Ilhéus. Atualmente está vinculada ao de Eunápolis, diocese desde 1996.
A Festa do Carmo, assim chamada a homenagem prestada à Santa desde o tempo da Matriz dos capuchinhos –e continuada após a vila em 23.05.1891 ser transformada em cidade com o simplificadíssimo nome de Belmonte– se traduz num novenário que vai de 7 a 16 de julho, dia este exclusivo da protetora e que, no ano de 1251, conforme a tradição, a Virgem Maria revelou a São Simão no Monte Carmelo em Jerusalém, o Escapulário, forte símbolo de proteção aos devotos.  Realizada na Praça da Matriz, onde seimpõe toda iluminada e altaneira a Igreja do Carmo na beira do Jequitinhonha, a festa é, ao mostrar ainda uma mistura das novenas festivas dos noiteiros com o chão florido de barracas, motivo de júbilo dos belmontenses.A lavagem da frente da Igreja com a participação de outros seguimentos religiosos é a sua parte sincrética.  A procissão do dia 16 é o ápice.  Ao som de músicas sacras das filarmônicas Lyra Popular e 15 de Setembro e acompanhada de sacerdotes locais e convidados, de visitantes de várias localidades e de muitos fiéis, a marcha religiosa percorre –abrindo alas o andor da Padroeira–, as principais ruas da cidade. A tradicional parada em frente à Igreja, no retorno, com o hino da Santa e os brados de Viva Nossa Senhora do Carmo a tomar conta do ambiente– é um momento apoteótico. O desfile de selecionadas canções de variados gêneros musicais interpretadas pelas referidas bandas filarmônicas é outra atração da Praça neste dia 16.  
Vários párocos passaram pela Paróquia e todos foram de suma importância. Porém não mencionar o padre João Clímaco dos Santos seria como cometer uma heresia. O Padre João, como era mais conhecido, nasceu em 12/03/1897 no Rio de Janeiro onde nesta Arquidiocese começara a vida sacerdotal sendo incardinado na Diocese de Botucatu. Sua opção de transferir-se para a Diocese de Ilhéus em 24.08.1929, conferiu-lhe –pelo bispo D. Manuel Antônio de Paiva– o Presbiterato. Padre João morrera em Ilhéus no dia 26.10.1978, aos 81 anos de idade.  Na freguesia de Belmonte, calcula-se, deva ter permanecido por mais ou menos uns 40 anos. Tornando-se queridíssimo na cidade, a larga convivência fez com que gerações de belmontenses recebessem os sacramentos de suas mãos. Antes exercera o sacerdócio na paróquia de Canavieiras (1938-1942), e já fixado na Carmelita, por vezes assistiu as de Itabuna, Macuco, Porto Seguro e Itapebi. Simples, comunicativo, hilário, imprevisível, o sacerdote era tido de inúmeras tiradas e passagens. Jamais fora conservador, mas continuou –numa das suas– a celebrar missas em latim mesmo após o Concilio Vaticano II haver liberado a língua em cada país. Certa feita, em mais uma sua, na novena da Padroeira as cantoras no alto do coro haviam iniciado uma ladainha, mas como era muito extensa, Padre João não hesitou em gritar do altar: Esta não! Tão grande assim eu não vou ter tempo de assistir a minha novela! (Da crônica “Padre João – Vigário de Belmonte” de 14.12.1978 do articulista belmontense Rubens Esteves do antigo Jornal da Manhã, de Ilhéus,). Um documento datado de 21/09/1954 –um abaixo-assinado de devotos belmontenses com objetivo de homenagear o pároco– fornecido pela Cúria diocesana ilheense, registra ter sido ele o primeiro vigário a ser ordenado pelo Bispado de Ilhéus.
Este escrito é um registro da lembrança que belmontenses –residentes e não residentes na cidade– denominados Filhos do Jequitinhonha, tiveram dos 300 anos da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, e aproveitam esta oportunidade para saudar os freis Humberto Bomfim e Francisco Vitoriano, respectivos Administrador Paroquial e Vigário Paroquial de Belmonte.  
 
                                                           FILHOS DO JEQUITINHONHA
 
Nota: Nota-se há um bom tempo certa mudança na Festa do Carmo. O importante, no entanto, como percebível, é que a devoção à Padroeira continua imutável.  
Nota1: No Padroado, o termo ‘paróquia’ tinha o mesmo valor de ‘freguesia’. Este permaneceu em uso ainda por bom tempo na República.